quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A atracção das alturas





Não há em todo o closet feminino peça que desperte mais polémica ou mais ardente paixão. Moda é comunicação, sabemos, mas, no caso dos sapatos de salto alto, há centenas de mensagens implícitas, transmitidas a homens, mulheres e crianças, que estão longe de gerar consenso mesmo entre as feministas. Quem é a mulher que sai à rua de saltos altos? O que nos diz ela, sabendo, de antemão, que fica mais alta, mais esguia, o peito e os glúteos imediatamente mais tensos por causa da posição que é obrigada a adoptar para manter o equilíbrio? Uma fashion victim, enclausurada em estereótipos arcaicos, ou uma dominadora que, graças a esses centímetros extra, toma uma consciência nova do seu corpo e do mundo? Uma combatente do exército urbano que faz soar os seus saltos na calçada do mesmo modo marcial que os batalhões conquistadores usam as botas de aço?

Há pouco mais de dez anos, o parlamento italiano foi agitado por uma discussão entre uma deputada de centro-direita e os seus colegas da ala esquerda, em que até os stilletos da primeira vieram à baila. Os segundos acusavam-na de defender o regresso da sujeição feminina aos fantasmas eróticos do macho predominante. Ao que ela contrapôs com a segurança extra que os saltos altos e finos conferiam à mulher que queria afirmar-se no palco da política ou do mundo empresarial. Imobilista e reaccionária, dizia, era essa esquerda que continuava refém do guarda-roupa de Maio de 68 caracterizado por calças unissexo e saltos rasos.

Tal discussão poderia durar eternamente sem conclusão à vista. A verdade, porém, é que, numa época em que a indumentária masculina rivalizava com a coquetterie da feminina, Luís XIV de França não dispensava os sapatos de salto alto na elaborada encenação do seu monárquico brilho. Não bastavam os veludos ricos, as sedas de cores exóticas, a construção de Versalhes. Aqueles centímetros extra, dir-se-ia, elevavam-no acima da sua mortal condição e, factor não despiciendo, também da imundice da capital. Tal como faziam as ricas cortesãs de Veneza, a quem os chapins de plataforma impediam de sujar o gentil pezinho nos pouco recomendáveis canais da Sereníssima cidade.
A sedução do poder, o poder da sedução – eis as chaves que explicam esta atracção pelas alturas, recuperada pelas grandes divas do Cinema, quando, nas décadas de 40 e 50, o italiano Salvatore Ferragamo fez calçar stilettos a sex symbols como Marilyn Monroe, Ava Gardner ou Anna Magnani. O corpo tenso, por causa dos saltos, melhorava-lhes extraordinariamente a postura e alterava-lhes o andar, tornando-o mais bamboleante e sensual. Incapazes de se moverem com agilidade e rapidez, dirão a propósito as feministas dos idos de 60. Muito mais seguras de si, argumentarão as que passam a vida a sonhar com um par de Manolos (por alusão ao designer espanhol Manolo Blahnik), Jimmy Choo’s ou Loubotin’s. As que viram na obsessão de Carrie Bradshaw, de Sexo e a Cidade, pelos primeiros, um prolongamento de si mesmas.
Na origem da irresolúvel controvérsia está também o papel que os sapatos de salto alto e fino desempenham num certo erotismo fetichista. A Neurologia ajuda a explicar esta percepção: nos pés concentram-se tantas terminações nervosas que difícil será não os incluir na cartografia das zonas erógenas.
Mas o som dos saltos na calçada ou no soalho de madeira tem também, em muitos de nós, o poder de despertar a memória de um passado há muito perdido. De tão associados a uma imagem requintada de feminilidade, evocam frequentemente a mãe ou a avó que perdemos há  muito, com uma eficácia só igualada pelo derradeiro vestígio de perfume conservado numa gaveta. Por causa disso, Pedro Almodóvar deu a uma pungente história de mães e filhas o título de Saltos Altos.

2 comentários:

  1. bom ano moda com história! mais uma vez fiquei a pensar nisto dos saltos altos. lamento, mas não amo nada disto. a violência sobre o corpo (das mulheres) tem tantas expressões visíveis e invisíveis, esta é mais uma : saltos altos. mas sim, há mulheres que gostam e sabem usar ;)

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  2. Podem-se amar ou odiar; difícil é ficar indiferente a eles sobretudo neste enquadramento de Moda com História. :)

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